A amostra nacional do estudo de 1998 foi constituída por 6903
adolescentes, com uma média de idade de 14 anos, frequentando
os 6º, 8º e 10º anos de escolaridade do ensino público
oficial, em Portugal Continental. É aproximadamente igual o número
de rapazes e raparigas (47% de rapazes), e estão distribuídos
proporcionalmente pelas 5 regiões educativas do Continente (Norte,
Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo, Algarve). A amostra foi aleatória
e tem representatividade nacional para os jovens que frequentam estes
graus de ensino, no ensino oficial (Matos et al., 2000).
A amostra nacional de 2002 foi constituída por 6131 adolescentes,
com uma média de idade de 14 anos, frequentando os 6º, 8º
e 10º anos de escolaridade do ensino público oficial, em
Portugal Continental. É aproximadamente igual o número
de rapazes e raparigas (49% de rapazes), e estão distribuídos
proporcionalmente pelas 5 regiões educativas do Continente (Norte,
Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo, Algarve). A amostra foi aleatória
e tem representatividade nacional para os jovens que frequentam estes
graus de ensino, no ensino oficial. Em ambos os estudos a unidade de
análise foi a “turma”. Os questionários foram
preenchidos na sala de aula, sendo de preenchimento anónimo e
voluntário.
QUEM SÃO OS INQUIRIDOS NO ESTUDO DE 2002?
O conjunto de adolescentes que respondeu ao questionário HBSC
“Aventura Social & Saúde” em Março de
2002, na sua grande maioria, são jovens de nacionalidade portuguesa.
A grande maioria identifica-se como sendo “branco”. Os jovens
referem que os seus pais têm nacionalidade maioritariamente portuguesa.
Os jovens com pais oriundos de países africanos de língua
portuguesa, vêm em segundo lugar.
Relativamente à profissão dos pais, na maior parte dos
casos esta situa-se no nível sócio-económico médio-baixo,
tanto no que diz respeito aos pais como às mães.
Relativamente ao nível de instrução grande parte
dos pais (tanto pais como mães) estudou até ao primeiro
ciclo (quatro anos de escolaridade).
Em relação ao percurso escolar dos alunos desta amostra,
verifica-se que cerca de dez por cento dos jovens, tem uma diferença
de idade superior a dois anos, em relação ao ano em que
está a estudar.
QUATRO ANOS DEPOIS…
COMO ESTÁ A SAÚDE DOS ADOLESCENTES EM PORTUGAL (1998-2002)?
Em relação à quase totalidade
das variáveis analisadas, os resultados obtidos junto dos adolescentes
mais novos, parecem ser mais favoráveis para a saúde do
que os obtidos pelos jovens mais velhos (mais de 15 anos).
Esta conclusão, já acentuada no estudo de 1998, mantem-se
igualmente verdadeira e saliente no estudo de 2002.
A excepção mais saliente em relação a esta
regra é a informação que os mais velhos têm
em maior quantidade e qualidade, face à transmissão do
VIH e outras DST’s. Este facto deve-se sem dúvida à
relevância desenvolvimental deste aumento de conhecimentos, face
à emergência de uma sexualidade adulta.
A diferença de género, no que diz respeito aos comportamentos
de saúde e reacções aos desafios e adversidades,
na sua globalidade mantêm-se também: os rapazes têm
mais tendência para comportamentos externalizantes tipo consumos,
acidentes, envolvimento em lutas e provocações, uma maior
prática de actividades físicas, e têm um menor investimento
na escola. Por outro lado apresentam algo que poderíamos identificar
como um optimismo em relação à vida, tendo mais
tendência a se percepcionarem como saudáveis, felizes,
satisfeitos com a vida, com o seu corpo, com as suas competências.
Referem um grupo social de apoio.
As raparigas têm mais tendência para comportamentos internalizantes
tipo sintomas físicos e somáticos de mal-estar, uma menor
prática de actividade física, uma maior preocupação
e insatisfação pelo seu corpo e a sua aparência.
Por outro lado apresentam um maior investimento na escola. Preferem
falar com as raparigas (tal como os rapazes, que as preferem para interlocutoras).
Parece haver uma maior monitorização da vida das filhas
do que dos filhos por parte dos pais e, em geral, uma maior pressão
para a conformidade. Estas conclusões, já acentuadas no
estudo de 1998, mantêm-se igualmente verdadeiras e salientes no
estudo de 2002.
Salienta-se como conclusão global deste estudo que a saúde
dos adolescentes não está nos seus melhores momentos.
A tendência em geral é para uma situação
agravada em termos de risco para a saúde. De salientar ainda
o agravamento descrito para situações de retenção
escolar, ser estrangeiro e ter problemas de saúde, que sugere
que também aqui não é fácil ser-se “diferente”.
Assim os adolescentes com problemas de adaptação à
escola, os adolescentes que “vêm de outro local/país”
e os adolescentes com problemas de saúde vêem a sua protecção
para a saúde baixar e aumentar o risco, a nível pessoal
bem com a nível da interacção com os cenários
físicos, sociais e ambientais das suas vidas.
De salientar ainda a confirmação do agravamento da situação,
em termos de risco para a saúde, com a idade, agravamento este
vivido de modo diferente nos rapazes e nas raparigas.
Em 1998, os adolescentes Portugueses eram em geral saudáveis,
quando comparados com os seus pares Europeus (Currie, Hurrelmann, Settertobulte,
Smith & Todd, 2000). Uma minoria de adolescentes apresentava então
comportamentos e estilos de vida ligados ao risco e a escolhas potencialmente
comprometedoras da sua saúde.
Embora sem alarmismos, urge aceitar que, para esta (preocupante) minoria,
o esforço a nível da promoção da sua participação
e acesso à saúde, não está a ser suficiente,
ou pelo menos não está a ser canalizado no sentido mais
eficaz.
Estudos qualitativos com utilização de grupos focais (“Focus
groups”) para discussão junto dos jovens (Dias, Matos,
& Gonçalves, 2002; Dias, Matos, & Gonçalves, 2002;
Matos & Santos, 2002; Matos, Gaspar, Vitória & Clemente,
2003) evidenciam algo que se poderia talvez identificar como um estilo
de vida ligado ao risco. Porém e de modo algo assustador, o risco
tende cada vez mais a aparecer, não apenas através de
escolhas de vida pessoais prejudiciais para a saúde, mas através
de uma cultura do tipo “porque não…?”. Os jovens
referem-se sobretudo a falta de alternativas.
Como já foi sublinhado são estes factos que dão
origem à adopção de estratégias participativas,
na promoção de estilos de vida saudáveis. São
ainda estes factos que evidenciam a necessidade de tornar a participação
dos jovens viável, quer através da possibilidade real
de acesso a cenários e contextos de saúde, quer através
da possibilidade real de imaginar, não necessariamente um futuro
de sonho, mas a possibilidade de um qualquer sonho para o futuro.
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